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Proibir as bets, sim; do dia para a noite, não: o que a Premier League ensina ao futebol brasileiro

Oct 04, 2026 5 min readBy Gustavo Monken
Gustavo Monken
Proibir as bets, sim; do dia para a noite, não: o que a Premier League ensina ao futebol brasileiro

Medida provisória dá dias para o futebol se desfazer de seu maior patrocinador. A Inglaterra levou três anos e ainda sentiu o golpe.

Neste 5 de outubro vence o prazo para as casas de apostas deixarem as camisas, os estádios e as redes dos clubes brasileiros. A medida provisória assinada pelo presidente Lula em 25 de setembro proíbe a exploração, a oferta, a intermediação e a publicidade de apostas de quota fixa em todo o território nacional. A pergunta que o futebol faz é se o fim das bets é necessário. A pergunta que esta matéria defende é outra: por que fazer isso em dias, se há um exemplo que mostra como fazer em anos?

Um mercado que se apoiou nas bets

A dependência é enorme. Segundo os balanços dos clubes, as casas de apostas responderam por 7,9% das receitas da Série A em 2025, ou R$ 1,14 bilhão, e ocupam o patrocínio máster de 14 dos 20 clubes em 2026. Em quatro clubes, a fatia passou de 10%: Corinthians (17,3%), Flamengo (12,71%), Sport (12,64%) e Juventude (10,49%). O presidente do Flamengo calcula que a proibição pode cortar entre R$ 400 milhões e R$ 430 milhões da receita do clube no próximo ano.

O dinheiro entrou num setor já endividado. A dívida das equipes da Série A chegou a R$ 14,3 bilhões, aumento de 46% entre 2021 e 2025. E o prejuízo não se limita ao contrato da camisa: para o economista Cesar Grafietti, a perda efetiva supera o valor direto, pois há outras entradas ligadas ao setor, como anúncios em estádios e cotas de transmissão, fortemente financiadas pelas operadoras. Quando o patrocinador principal sai, o rombo se espalha por todo o balanço. 

Por que as bets são um problema

Quem defende a proibição aponta, antes de tudo, o custo para as famílias. Um estudo divulgado pela Gazeta do Povo indica que para cada aumento de 1% em apostas, o endividamento cresce 0,23%. A CNC estima que a inadimplência ligada às plataformas retirou R$ 143 bilhões do varejo entre janeiro de 2023 e março de 2026. O Procon-SP revelou que 39,7% dos apostadores se endividaram depois de começar a usar as plataformas. Em agosto de 2024, segundo estudo do Banco Central, 5 milhões de beneficiários do Bolsa Família apostaram, enviando R$ 2 bilhões às plataformas.

Esses números têm contestação, e é justo dizer isso. O setor questiona a metodologia da CNC, e há quem leia os dados apresentados pelo presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, de outro modo: segundo o iGaming Business, eles não sustentam que as bets sejam responsáveis pelo endividamento, e o problema estaria no crédito caro. O debate sobre a causa exata continua aberto, mas a direção dos estudos é consistente: o dinheiro que sai do orçamento para a aposta sai de outro lugar.

Há ainda o dano ao próprio esporte. A Sportradar apontou o Brasil como líder mundial em suspeitas de manipulação, com 152 partidas sob suspeita em 2022. O caso investigado em Goiás identificou manipulações em pelo menos 13 jogos. Quando o patrocinador do clube é a mesma indústria que lucra com o resultado, o conflito de interesses não precisa ser explicado.

O que a Premier League fez

A liga inglesa tem sido citada como modelo, e o motivo é a forma. A decisão foi votada e anunciada em abril de 2023, com o objetivo declarado de proteger o público jovem e grupos vulneráveis, e só passou a valer na temporada 2026/27. Foi uma medida aprovada voluntariamente pelos 20 clubes em 2023, construída com liga, clubes e governo.

Ela também foi parcial. A proibição vale para a frente da camisa; mangas, painéis à beira do campo e materiais promocionais seguem permitidos, ao menos por enquanto. Segundo o Times, as mangas foram preservadas porque uma proibição geral causaria dificuldades financeiras aos clubes mais abaixo na pirâmide. 

Mesmo assim, a transição doeu. O Guardian estimou perda coletiva de até £ 80 milhões em patrocínios. Seis equipes lançaram uniformes sem patrocinador definido para a nova temporada. Para os clubes recém-promovidos, o valor dos acordos de patrocínio caiu cerca de 50%. A lição é direta: três anos de preparação, uma liga muito mais rica e um problema que ainda assim bateu forte.

Por que o Brasil precisa de um caminho gradual

O Brasil está fazendo o contrário. Segundo os clubes que foram ao STF, a medida determina a retirada de publicidade e patrocínios em dez dias e o fim das autorizações de operação em 30 dias. São Paulo e outros quatro clubes pedem um período de transição para os contratos existentes, e Fluminense, Cruzeiro e mais 14 clubes também acionaram o Supremo. O próprio governo reconhece, na justificativa, que a proibição terá impacto sobre a arrecadação federal. Um calendário em fases responderia ao problema sem abrir mão do objetivo. Uma proposta possível: primeiro, a saída das bets da frente das camisas e das transmissões; depois, o fim da publicidade em mídia e estádios; por fim, o encerramento das operações, com tempo para os clubes renegociarem contratos, diversificarem receitas e se ajustarem. É o que a Inglaterra fez, com uma diferença importante: o Brasil tem clubes mais endividados e menos margem.

Há ainda o risco prático. O bloqueio doméstico não impede que apostadores usem plataformas sediadas no exterior, e a EGBA, entidade do setor, alega que a proibição total de publicidade na Itália favoreceu o mercado ilegal. É um argumento de parte interessada, mas aponta para o que uma saída brusca pode causar: empurrar o apostador para um mercado sem fiscalização nem proteção. 

O que o debate ainda precisa responder

Quem defende a proibição imediata pode argumentar que a pressão popular a justifica, e os números ajudam: pesquisa Atlas/Bloomberg mostra 75% de apoio à proibição, contra 17% de contrários. Também lembram que a gravidade do problema não espera clubes se ajustarem. Já o comitê de integridade da FPF avisa que a manipulação de competições existia antes da regulamentação e continuará sendo um risco independentemente do modelo jurídico. 

Esses contrapontos mostram que a discussão não é entre proibir ou não, mas sobre o ritmo e o cuidado. As bets são um problema real para as famílias e para o esporte, e o fim da dependência do futebol é uma meta correta. O que separa uma política de saúde pública de um colapso financeiro de clubes é o tempo que se dá para a mudança acontecer.

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Gustavo Monken
CMO of Festina · Specialist in Digital Marketing, Content, SEO, CRM, and AI

Marketing professional with experience in content production, SEO, email marketing, and digital communication. I currently work in the tourism and hospitality sector, developing campaigns, social media content, and customer relationship strategies. I have experience with RD Station, Google Analytics, Canva, Photoshop, and AI applied to marketing.

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