
Em O Livro dos Abraços, Eduardo Galeano conta a história de Diego, um menino que, diante do mar pela primeira vez, pede ao pai: “Me ajuda a olhar”. A partir dessa breve cena, o texto reflete sobre o que significa ajudar alguém, sobre a diferença entre acolher e fazer pelo outro e sobre a importância de compreender aquilo que o outro realmente precisa.
Em O livro dos abraços, publicado pela primeira vez em 1989, o escritor e jornalista uruguaio Eduardo Galeano traz fragmentos e retalhos de memórias, das histórias da América Latina e de sua própria inventividade, que, a cada linha, nos abraçam e nos convidam a pensar e a sentir. Sobretudo, sentir.
Dentre as composições trazidas pela obra, A função da arte/1 conta a história do menino Diego, que viaja para o Sul com seu pai, Santiago, para conhecer o mar. O texto parece curto, contudo, é cheio de espaço para que nós, leitores, possamos imaginar e nos deslumbrar com os sentimentos do pequeno.
A Viagem
Imagine pai e filho em uma viagem com destino ao mar. Não uma cidade, um monumento, uma memória. E sim, o mar. Próximo ao destino, é possível observar dunas altas, muito altas, que impossibilitavam que o grande momento acontecesse antes mesmo da chegada. Mas o mar é generoso e se manteve ali, esperando pelo garoto.
Diego e Santiago decidem caminhar pelas dunas e, a cada passo dado, era um sentimento pulsante nos corações entrelaçados por aquilo que se entende como família. Diego, jovem demais para entender as próprias expectativas; Santiago, experiente demais para tentar controlar a ansiedade por seu filho. Quando os dois finalmente alcançam o topo da duna, após uma longa caminhada, o mar estava, enfim, na frente deles. Era imenso. Era tão bonito que Diego ficou mudo.
“E quando finalmente conseguiu falar, tremendo, gaguejando, pediu ao pai: – Me ajuda a olhar!
O pedido de ajuda
É assim que o texto termina, com um pedido de ajuda. Mas note: não foi um pedido de ajuda comum. Diego não pediu ajuda para entender o que estava vendo. Não pediu ajuda para dar nome a algo que tenha visto ou, até mesmo, sentido. Talvez, pela pouca idade, não soubesse expressar em palavras o que viu e o que sentiu, mesmo sabendo o que viu e o que sentiu. Diante do infinito, o menino pede ao pai que o ajude a olhar, pois o mar era grande demais para caber em seus olhos.
A primeira vez em que li, fiquei tão abismado quanto Diego, e várias perguntas surgiram na minha tão acelerada cabeça, dentre as quais a que mais me chamou atenção foi relacionada a Santiago: o que significa ser alguém a quem se pede ajuda?
Aquele que ajuda
Ser quem ajuda não parte de um estado fixo no tempo, no espaço ou no ser. Ao tocar esse tema, até por consonância com a história aqui trazida, muitos poderiam pensar na figura de um pai, de uma mãe ou de um irmão mais velho. Alguns pensariam em algum tipo de liderança, seja do trabalho, do povo ou da comunidade em que vivem. Outros se lembrariam de médicos, psicólogos, terapeutas. Uma referência técnica em algum assunto. Ou, até mesmo, alguma criança muito criativa e com acesso à internet que criou um canal no YouTube para ensinar aos mais velhos como ligar o celular quando o botão power estiver com mau contato. Mas nada disso define o sujeito que ajuda.
E ajudar não é contar todos os detalhes das inúmeras experiências que temos ao longo da vida. Também não é partir do pressuposto de que quem precisa de ajuda está totalmente alheio ao mundo, debilitado, incapaz. Em tempo, sabe aquela irritação que surge na borda inferior do peito, que soa como uma inflamação, quando alguém age de forma totalmente contrária àquilo que nós aconselhamos? Nada disso é ajudar.
Então, quem ajuda? O que é ajudar?
Um vislumbre da resposta exsurge das nuances do pedido que Diego faz. Reparem novamente. Repito: Diego não pediu ajuda para entender o que estava vendo; não pediu ajuda para dar nome a algo que tenha visto ou, até mesmo, sentido. Diego precisava de ajuda para... olhar. Santiago poderia explicar o que era o mar, o que eram as ondas, descrever os movimentos da maré. Mas Diego queria o olhar, não uma explicação. Diego queria que o pai visse o que ele, sozinho, não se sentia capaz.
Talvez ser aquele que ajuda signifique entender qual é a necessidade do outro para além daquilo que queremos que ele precise; e ajudar seja, justamente, agir em consonância com essa máxima. Talvez.
O abraço
Finalmente, o abraço. Aqui, o abraço não é um movimento literal, é um significado. É a acolhida. São espíritos que se entrelaçam com um único intuito: compartilhar. Ajudar talvez seja isso, compartilhar com quem precisa aquilo que se tem de sobra. Mas, por escolha, não pretendo tentar responder o que é a ajuda. Quero refletir com quem lê quais são as possibilidades. Talvez esse seja o nosso abraço. E a resposta talvez esteja no longo silêncio de quem se propõe a olhar o infinito.
Fontes:
- O livro dos abraços - Eduardo Galeano
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