
O Grupo Globo demitiu o diretor-geral de Mídia Impressa e Rádio, Frederic Kachar, após ter acesso a conversas dele com Daniel Vorcaro, ex-banqueiro preso e acusado pela PF de liderar uma fraude bilionária. Este artigo comenta o episódio com um ponto de vista crítico: o problema não é só o que as mensagens dizem, mas o canal que elas revelam entre um anunciante e o topo de um grupo de comunicação.
O que está documentado
Em 15 de outubro, o Grupo Globo comunicou a demissão de Kachar, depois de ter acesso, um dia antes, às conversas privadas dele com Vorcaro, trocadas entre outubro de 2023 e julho de 2025. Segundo o comunicado, o conteúdo “revela uma relação inadequada do executivo com um anunciante”. A empresa reafirmou, na mesma nota, a independência editorial de seus veículos. Kachar comandava os jornais O Globo, Valor e Extra, as revistas da Editora Globo, como Marie Claire e Vogue, e o Sistema Globo de Rádio, que inclui a CBN. Ou seja, o executivo tinha influência sobre praticamente toda a operação de mídia impressa e rádio do grupo.
Quem era o interlocutor
Vorcaro foi preso em novembro de 2025, acusado de liderar um esquema que criou carteiras falsas de crédito para inflar o patrimônio do Master e vendê-lo ao BRB. Segundo a PF, a fraude é da ordem de R$ 12 bilhões; a defesa chama a fraude de “fato inexistente”. O ministro André Mendonça, do STF, apontou, ao decretar nova prisão em março, a tentativa de Vorcaro de silenciar jornalistas com intimidação e violência. Ele ainda não foi condenado, e a defesa contesta as acusações, mas esse é o perfil do homem que tinha linha direta com o comando de grandes jornais.

A porta aberta
O que os diálogos publicados descrevem é mais do que cortesia comercial. A Agência Pública relata que, em abril de 2024, Kachar chegou a oferecer ao banqueiro uma entrevista no Valor. Quando Vorcaro reclamou de uma informação, o executivo respondeu “Quer que eu peça pra corrigir?” A resposta do banqueiro foi um “deve” seco, segundo a reportagem. Para a Pública, as mensagens sugerem uma porta aberta no editorial do grupo às demandas e insatisfações do banqueiro.
Em outro trecho, de acordo com o Midiamax, Kachar disse que, se houvesse erro numa coluna da jornalista Malu Gaspar, pediria correção imediata. O Poder360 relata que Vorcaro sugeriu que a Vogue Brasil cobrisse a empresa da então namorada e que, dias depois, o executivo perguntou se ela havia ficado feliz com as matérias. Há ainda a dimensão comercial: o Master foi o principal patrocinador do Summit Valor Econômico Brazil-USA, em maio de 2024. E, quando Vorcaro parou de responder, Kachar insistiu em manter contato e chegou a mandar um presente de aniversário.
A crítica está nesse conjunto. Um anunciante comum, que reclama de uma reportagem, fala com a área comercial ou com os canais de correção abertos a qualquer leitor. Aqui, o anunciante tinha o telefone do chefe de todas as redações e recebia dele a oferta de intervir.

O que pode ser dito em defesa, e por que não basta
É justo registrar os contrapontos. As conversas vão até julho de 2025, antes de o Banco Central vetar a compra do Master pelo BRB, em setembro, e liquidar o banco, em novembro. Naquele momento, Vorcaro ainda não estava preso. E, segundo A Crítica, as mensagens também mostram Kachar dizendo que não poderia censurar um colunista e rejeitando interferência direta na cobertura em alguns momentos. A Globo, por sua vez, sustenta que seus veículos seguiram fazendo uma cobertura crítica do caso Master.
Nada disso resolve o problema central. Independência editorial não se mede só pelo resultado final de cada texto, mas também pelo processo e pela aparência. Se um executivo se oferece para “pedir correção” a um anunciante poderoso, a pergunta sobre quantas vezes isso funcionou, e para quem, fica de pé. O que está documentado é a oferta e a disposição. Se algum texto foi de fato alterado é algo que a Globo deve esclarecer ao público, em vez de apenas reafirmar o princípio.
Jornalistas na linha de tiro
Há ainda uma ironia que o caso torna difícil de ignorar. Em março, a PF apontou mensagens em que Vorcaro sugeria simular um assalto para agredir o colunista Lauro Jardim, de O Globo. Em outro episódio, mensagens indicam que ele e um publicitário discutiram formas de obter informações pessoais da colunista Malu Gaspar, que investigava o Master. As entidades de imprensa repudiaram. A defesa de Vorcaro diz que ele jamais quis intimidar jornalistas e que as mensagens foram tiradas de contexto.
Ou seja, enquanto repórteres e colunistas do grupo apareciam como alvos, um executivo do mesmo grupo mantinha, segundo as mensagens, uma relação próxima com o homem que os incomodava. Isso não prova coordenação, mas mostra o tamanho da fragilidade: a redação enfrentando pressão por fora, e a direção, por dentro, deixando uma porta aberta.
Não é um caso isolado
Seria confortável tratar o episódio como desvio de uma pessoa. O DGABC relata que Vorcaro editava reportagens, derrubava textos e sugeria pautas ao portal Metrópoles, segundo conversas encontradas no mesmo celular. Se esse retrato se confirmar, o problema é estrutural: um banqueiro com recursos e urgência encontrou, em mais de um veículo, canais para influenciar o que era publicado.

O que se espera da Globo e da imprensa
A demissão, anunciada um dia depois de a empresa ter acesso às mensagens, é uma resposta. Mas a relação durou quase dois anos, e só veio à tona porque a PF apreendeu um celular, não porque os controles internos do grupo a detectaram. Cabe perguntar se a Globo vai explicar quais salvaguardas existiam entre as áreas comercial e editorial, se houve outros contatos além dos revelados e se pretende submeter o caso a uma revisão independente, divulgando os resultados. Essas são as posições deste texto, não fatos apurados.
O jornalismo que cobra transparência dos poderosos precisa praticá-la primeiro. Demitir um executivo encerra um capítulo. Explicar como o canal funcionou, e garantir que ele não exista, é o que protege o leitor.
Este artigo contou com o apoio de inteligência artificial em seu processo de produção e revisão. O conteúdo final foi revisado e validado pelo autor.
Fontes:
Leia também
Imparcialidade não é só o que se publica: o que o almoço da Globo e a capa da Veja dizem sobre a imprensa no segundo turno
Por Gustavo MonkenDa cautela à votação: o que mudou na postura de Davi Alcolumbre sobre a escala 6x1?
Por Thiago LealApós anulação dos votos de Anthony Garotinho (Republicanos), Douglas Ruas (PL) é eleito governador do Rio de Janeiro no primeiro turno
Por Raul Salustiano0 comentários
O autor da mensagem, e não o Grupo Festina, é o responsável pelo comentário. Leia as Regras de Uso dos Comentários.