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Ted Lasso e o futebol feminino: a lição antes da Copa do Mundo de 2027

16 de out. de 2026 10 min de leituraPor Bruno Freittas
Bruno Freittas
Quarta temporada de Ted Lasso foca em narrativa sobre o futebol feminino.
Quarta temporada de Ted Lasso foca em narrativa sobre o futebol feminino.Imagem: Divulgação/AppleTV

Se até o AFC Richmond já entendeu que o futuro do futebol passa por abraçar de vez a modalidade feminina, talvez seja hora de todo mundo entender também.

A quarta temporada de Ted Lasso, aclamada série da Apple TV, promove uma mudança significativa ao colocar o futebol feminino no centro da história. Depois de acompanhar os desafios do treinador interpretado por Jason Sudeikis no futebol inglês, a trama agora explora a construção da equipe feminina do AFC Richmond, das dificuldades de estruturar um projeto esportivo do zero até a formação de um elenco capaz de competir em alto nível.

À primeira vista, a mudança pode parecer apenas uma nova direção criativa para uma série que conquistou o público com humor, lições sobre liderança e reflexões acerca das relações humanas. Mas a escolha ganha outra dimensão quando observada no contexto atual do esporte: em um momento de plena expansão do futebol feminino, a decisão de colocar a modalidade no centro da narrativa amplia uma discussão que vai além das quatro linhas e envolve representatividade, oportunidades profissionais, mercado e transformação cultural.

O elenco feminino do AFC Richmond na quarta temporada de Ted Lasso.
O elenco feminino do AFC Richmond na quarta temporada de Ted Lasso.Fonte: Divulgação/Apple TV

O momento também é relevante, sobretudo, para o Brasil: em 2027, o país receberá a Copa do Mundo Feminina da FIFA, entre 24 de junho e 25 de julho, a primeira edição do torneio a ser realizada na América do Sul. A competição reunirá 32 seleções em oito cidades brasileiras e terá a partida de abertura e a final no Maracanã, no Rio de Janeiro.

O evento não é apenas uma oportunidade de acompanhar algumas das melhores jogadoras do planeta em solo brasileiro, mas também representa a possibilidade de aproximar milhões de pessoas de uma modalidade que ainda enfrenta barreiras históricas de visibilidade e preconceito no país.

Quando o futebol feminino deixa de ser coadjuvante

Durante décadas, e ainda hoje, o futebol feminino precisou disputar espaço em um ambiente construído majoritariamente para os homens. A desigualdade de investimentos, a cobertura limitada da imprensa, a falta de infraestrutura e os preconceitos sobre a capacidade das mulheres de praticar o esporte ajudaram a sustentar uma realidade na qual o interesse do público ainda é frequentemente tratado como uma incógnita, e não como uma oportunidade a ser desenvolvida.

Essa lógica começou a perder força à medida que clubes, competições, patrocinadores e veículos de comunicação passaram a reconhecer o potencial da modalidade. O crescimento do futebol feminino não se resume apenas ao desempenho das seleções em grandes torneios, mas também passa pela profissionalização das equipes, pela expansão das transmissões, pela presença das atletas nas redes sociais e pela construção de novas relações comerciais ao redor do esporte.

Nesse cenário, Ted Lasso oferece uma contribuição interessante justamente por apresentar o futebol feminino como parte natural de seu universo narrativo. As personagens não estão ali apenas para ilustrar uma discussão sobre igualdade. Elas precisam construir relações de apoio, conquistar espaço, enfrentar inúmeras dificuldades e desenvolver uma identidade coletiva, desafios esses que fazem parte de qualquer equipe esportiva.

Em Ted Lasso, personagem de Jason Sudeikis enfrenta os desafios de treinar um time feminino.
Em Ted Lasso, personagem de Jason Sudeikis enfrenta os desafios de treinar um time feminino.Fonte: Divulgação/Apple TV

A série também abre espaço para uma reflexão sobre liderança: construir um time não significa apenas contratar boas jogadoras e definir um modelo de jogo. É necessário criar condições dignas de trabalho, estabelecer objetivos claros, desenvolver talentos e formar um ambiente no qual diferentes indivíduos sejam capazes de contribuir para um propósito em comum.

Esse cenário faz com que os acontecimentos da história vão para além do entretenimento. Isso porque o futebol feminino não precisa ser tratado como uma versão alternativa do esporte masculino, mas como uma modalidade à parte com suas próprias protagonistas, necessidades, dinâmicas e possibilidades de crescimento.

Quando uma produção de alcance internacional escolhe contar essa história, ela também contribui para mudar a maneira como o público enxerga as atletas. Contudo, a representatividade não resolve os problemas estruturais do esporte por si só, mas ajuda a tornar familiar tudo aquilo que, durante muito tempo, foi apresentado como exceção.

Copa do Mundo Feminina FIFA 2027: uma oportunidade para o Brasil

A realização da Copa do Mundo Feminina no Brasil coloca o país diante de uma oportunidade que vai muito além da organização de um grande evento esportivo. Pela primeira vez, a principal competição mundial de seleções femininas será disputada na América do Sul, trazendo para o país a responsabilidade de receber atletas, torcedores e profissionais dos quatro cantos do mundo.

Ainda assim, para o país que tem uma relação histórica com o esporte e revelou jogadoras que ajudaram a ampliar os horizontes da modalidade, como Marta, Formiga e Cristiane, a paixão nacional pelo futebol nem sempre se traduziu em condições equivalentes de desenvolvimento para mulheres e homens.

Por isso, a Copa do Mundo pode ajudar a aproximar essa tradição de uma nova geração de torcedores. A realização de partidas em oito cidades, com estádios conhecidos do público brasileiro, oferece a oportunidade de transformar o interesse pela competição em uma experiência coletiva. As crianças poderão acompanhar suas referências de perto; as famílias terão a chance de descobrir novas seleções; e as atletas poderão encontrar inspiração em histórias que, nem sempre, recebem a mesma atenção que o futebol masculino recebe.

Apesar do preconceito, os jogos da Seleção Brasileira Feminina têm recebido índices de público cada vez maiores.
Apesar do preconceito, os jogos da Seleção Brasileira Feminina têm recebido índices de público cada vez maiores.Fonte: Divulgação/CBF

Entretanto, existe uma diferença primordial entre sediar uma Copa do Mundo e aproveitar, de fato, tudo o que ela pode proporcionar. Isso porque o verdadeiro sucesso do torneio não deve ser medido apenas pela lotação dos estádios, pela audiência das transmissões ou pelo volume de receitas comerciais. Esses indicadores são importantes, mas não contam a história inteira. O legado da competição também dependerá da capacidade de ampliar o acesso ao esporte, fortalecer as competições nacionais, melhorar as condições de trabalho das atletas e estimular a presença de mais mulheres nesses ambientes profissionais.

Isso exige, é claro, planejamento e continuidade. A partir de agora, os clubes precisam investir em estrutura e desenvolvimento, a CBF deve trabalhar para consolidar calendários e competições, e os patrocinadores precisam compreender que o futebol feminino não pode receber atenção somente de quatro em quatro anos, quando um grande evento internacional se aproxima.

Os veículos de comunicação também têm um papel central nesse processo. A cobertura regular dos campeonatos e a valorização das histórias das jogadoras são fundamentais para construir uma relação duradoura com o público. Afinal, não é possível desenvolver uma cultura esportiva em torno de uma modalidade que sempre desaparece dos noticiários quando termina o principal torneio do calendário.

Representatividade também é questão de mercado

A expansão do futebol feminino tem implicações que alcançam o universo dos negócios. Para marcas, patrocinadores e plataformas de entretenimento, a modalidade representa uma oportunidade de estabelecer conexões com novos públicos e participar de uma transformação cultural que já está em andamento.

O crescimento, porém, precisa ser acompanhado de uma compreensão mais ampla sobre o valor do esporte. Investir no futebol feminino não deve ser apenas uma estratégia para aproveitar a repercussão de uma Copa do Mundo. É também uma decisão sobre quais histórias merecem ser contadas, quais profissionais recebem oportunidades e quais espaços a sociedade está disposta a compartilhar.

Espanha, atual campeã, igualou em 2023 o tratamento das suas seleções feminina e masculina.
Espanha, atual campeã, igualou em 2023 o tratamento das suas seleções feminina e masculina.Créditos: Dean LewinsFonte: EFE/EPA

Quando uma marca apoia uma equipe feminina, quando uma emissora amplia a cobertura de uma competição ou quando uma plataforma de entretenimento coloca mulheres no centro de uma narrativa esportiva, essas decisões ajudam a influenciar a percepção coletiva sobre a modalidade. O efeito pode ir além da exposição imediata, contribuindo para aproximar novos públicos e criar referências para quem ainda está descobrindo o esporte.

A quarta temporada de Ted Lasso se encaixa nessa discussão ao conectar entretenimento e futebol feminino em uma produção que já possui uma audiência estabelecida. A série não precisa transformar cada episódio em um manifesto para participar desse movimento. Ao dar espaço às personagens e permitir que suas histórias sejam desenvolvidas, ela contribui para que a presença das mulheres no futebol seja percebida como parte do cotidiano esportivo.

É claro que isso não significa ignorar os desafios ou presumir que a representatividade na ficção seja suficiente para transformar a realidade, já que a visibilidade precisa encontrar respaldo em oportunidades concretas, como remuneração adequada, infraestrutura, segurança e condições para que as atletas construam carreiras sustentáveis.

É justamente nessa relação entre imagem e realidade que está uma das questões mais importantes para o futuro da modalidade. Afinal, o interesse comercial pode ajudar a financiar o desenvolvimento do esporte, mas seu potencial só será plenamente aproveitado se estiver associado a compromissos de longo prazo.

O impacto social vai além das quatro linhas

A importância do futebol feminino também está naquilo que o esporte representa para quem observa de fora. Durante muito tempo, as meninas cresciam ouvindo que o futebol não era um espaço destinado a elas. Com isso, muitas ainda encontram dificuldades para jogar, treinar ou simplesmente demonstrar interesse pela modalidade sem enfrentar comentários preconceituosos.

Ampliar a presença das mulheres no futebol ajuda justamente a questionar essas barreiras. Quando meninas veem atletas ocupando grandes estádios, sendo entrevistadas, conquistando títulos e protagonizando grandes campanhas, elas passam a ter mais referências para imaginar suas próprias possibilidades. O esporte pode se tornar uma porta de entrada para a convivência, para a autonomia, para a cidadania e para o desenvolvimento de virtudes que ultrapassam o campo.

O impacto também ajuda a ressignificar a forma como meninos e homens compreendem a participação feminina na sociedade. O contato com atletas, equipes e histórias que desafiam os estereótipos contribui para ampliar referências e questionar preconceitos que ainda são naturalizados. Não é sobre atribuir ao futebol a responsabilidade de resolver desigualdades históricas, mas sim reconhecer que a cultura esportiva participa ativamente da maneira que aprendemos a conviver e a enxergar outros indivíduos.

Investir nas categorias de base é fundamental para que a modalidade continue impactando a sociedade positivamente.
Investir nas categorias de base é fundamental para que a modalidade continue impactando a sociedade positivamente.Fonte: Staff Images/CBF

Desta forma, o Mundial de 2027 é uma oportunidade única de mobilização nacional, na qual escolas, projetos sociais, clubes, empresas e instituições terão espaço para desenvolver iniciativas que conectem a competição a temas como educação, inclusão e equidade de gênero. O desafio será garantir que essas ações não terminem junto com o apito final do dia 25 de julho de 2027.

É nesse ponto que a discussão se torna maior do que o próprio esporte: uma menina que encontra espaço para jogar futebol também encontra a possibilidade de desafiar as expectativas impostas sobre seu comportamento, seus espaços ocupados e seu futuro. Uma atleta que conquista o devido reconhecimento ajuda a ampliar o repertório cultural de uma sociedade; e uma modalidade que recebe investimentos contribui para tornar o ambiente esportivo mais acessível a quem historicamente teve menos oportunidades.

O futebol feminino não precisa mais pedir licença

Talvez uma das maiores conquistas do futebol feminino seja justamente a possibilidade de não precisar mais justificar sua existência constantemente. O debate não deveria mais se limitar a perguntar se existe público interessado; se as mulheres conseguem competir em alto nível; ou se vale a pena investir na modalidade. Essas questões precisam dar lugar a discussões mais maduras sobre como ampliar oportunidades, melhorar infraestruturas e construir um crescimento sustentável.

Mas obviamente isso não significa afirmar que a desigualdade foi superada. Preconceitos, diferenças de investimento e obstáculos profissionais continuam fazendo parte da realidade das atletas e competições. O avanço existe, é claro, mas não acontece de maneira uniforme, nem está garantido para sempre. É preciso transformar a atenção conquistada em políticas progressistas, captação de recursos e implementação de compromissos que sobrevivam aos momentos de maior exposição.

Modalidade já colhe frutos no Brasil: Corinthians enfrentou Arsenal na final do Mundial de Clubes em 2026.
Modalidade já colhe frutos no Brasil: Corinthians enfrentou Arsenal na final do Mundial de Clubes em 2026.Créditos: David PriceFonte: GettyImages

A quarta temporada de Ted Lasso ajuda a colocar essa mudança de perspectiva em evidência ao levar o futebol feminino para o centro de uma história amplamente conhecida no mundo. Já a Copa do Mundo de 2027 oferece ao Brasil a oportunidade de levar essa discussão para as ruas, para os estádios, para as escolas, para as empresas e para as casas de milhões de pessoas.

Os dois movimentos se encontram em uma ideia simples, mas importante: a presença das mulheres no futebol não tem que depender de uma ocasião especial para ser reconhecida. Ela precisa fazer parte da rotina do esporte, da cobertura jornalística, dos investimentos e do imaginário coletivo.

A Copa de 2027 pode acelerar o processo de crescimento do futebol feminino no Brasil e no mundo, conquistar novos espaços e ampliar suas possibilidades dentro e fora de campo, desde que o país esteja disposto a construir um legado que vá além do espetáculo. A questão, agora, é saber se clubes, mercado, imprensa e sociedade estarão preparados para acompanhar essa transformação e, principalmente, para contribuir com ela de maneira ativa.

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Bruno Freittas
Jornalista · Especialista em Comunicação, Conteúdo e Storytelling

Jornalista por essência e contador de histórias por vocação, construí minha carreira movido pela curiosidade de compreender o mundo e pela vontade de dar voz a histórias que merecem ser contadas. Ao longo de quase dez anos de carreira, passei por redações jornalísticas, escritórios de comunicação institucional e agências de marketing de conteúdo, experiências essas que ampliaram meu olhar sobre as diferentes formas de informar, comunicar e conectar pessoas. Meu maior interesse é entender o que existe por trás dos acontecimentos, ouvir diferentes perspectivas e investigar os contextos que ajudam a explicar a realidade. Acredito que uma boa história começa com as perguntas certas, exige apuração cuidadosa e ganha força quando consegue aproximar o leitor de realidades e perspectivas que talvez não conhecesse. Acredito que comunicar vai além de dar visibilidade a um fato ou a uma ideia. É também reconhecer a importância das histórias individuais, compreender as relações que moldam a sociedade e criar oportunidades para dialogar e refletir. É nesse encontro entre informação, contexto e experiência humana que encontro sentido na minha profissão e motivação para continuar contando histórias.

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