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A uma semana do segundo turno, dois episódios colocaram a imprensa no centro da disputa: a capa da Veja com áudios atribuídos a Daniel Vorcaro, contestada por PF, PGR e pela defesa do ex-banqueiro, e o almoço de Flávio Bolsonaro com a cúpula da Globo, horas antes da sabatina no Jornal Nacional. Este artigo opinativo defende que imparcialidade se mede também pelo processo e pela aparência, e que a imprensa precisa prestar contas sobre ambos.
A semana em que a imprensa virou personagem
Em 9 de outubro, a Veja foi às bancas com uma reportagem de capa. Sete dias depois, em 16 de outubro, a coluna de Igor Gadelha, no Metrópoles, revelou um almoço reservado entre Flávio Bolsonaro e executivos da Globo. Dois episódios diferentes, com uma mesma pergunta por trás: a imprensa está sendo equidistante com os dois candidatos que disputam a Presidência?
Antes de avançar, um aviso necessário: este texto não afirma que a cobertura jornalística tenha sido desequilibrada. Não há, nos fatos reunidos aqui, prova disso. A crítica é outra, e talvez mais básica: a de que a imprensa precisa ser, e parecer, imparcial, e de que nos dois episódios o processo deixou a desejar.
O que a Veja publicou e o que foi contestado
Segundo o Jornal Opção, a Veja publicou reportagem afirmando ter áudios e documentos em que Vorcaro relata supostos pagamentos ligados a interesses do Master no governo; num dos áudios, uma voz atribuída a ele diz ter colocado dinheiro num filme sobre Lula. A publicação veio a 16 dias do segundo turno.
A reação foi imediata. A Polícia Federal informou que Vorcaro não prestou depoimento com esse teor nem entregou anexos ou documentos com esse conteúdo, e o advogado dele disse não ter conhecimento do suposto financiamento. A PGR afirmou que não houve depoimento oral, e a defesa não confirmou o conteúdo nem a autenticidade do áudio. A AGU anunciou que pediria direito de resposta e retificação à revista.
É importante ser preciso sobre o que foi e o que não foi desmentido. Foi contestada a existência de um depoimento ou anexo entregue à PF. Não há, até aqui, prova de que o áudio seja falso. O grupo Prerrogativas pediu perícia, levantando suspeita de edição ou uso de IA, mas não há conclusão pericial nas fontes consultadas que confirme adulteração. A revista, segundo um relato do Brasil Paralelo (veículo partidário), respondeu que o “depoimento” foi invenção da campanha de Lula e que os áudios vieram de fontes próximas ao banqueiro, cujas identidades foram preservadas.
A crítica de processo é esta: uma acusação gravíssima, apoiada em material de origem não revelada, contestada por PF, PGR e pelo advogado do próprio Vorcaro, publicada a duas semanas da votação. A imprensa tem o direito, e o dever, de publicar o que apura. Ela também tem o dever de dar ao leitor meios de avaliar a solidez do material, sobretudo quando o tempo até a urna não permite que a verdade se firme antes do voto.
O almoço
Segundo a coluna do Metrópoles, Flávio almoçou na sede da Globo, no mesmo dia da sabatina, acompanhado de um assessor e de Rogério Marinho; foi o segundo almoço dele com a cúpula, o primeiro antes do início da campanha. Lula, segundo auxiliares, não teria sido convidado.
A Globo confirmou o encontro. Em nota, informou que Flávio foi recebido por João Roberto Marinho e Paulo Tonet, sem lideranças do jornalismo, e que visitas institucionais são rotina em empresas de mídia. A emissora acrescentou que a campanha de Lula não pediu um encontro semelhante e que, segundo apuração da CNN, o pedido de visita partiu da campanha de Flávio.
Lula reagiu em ato de campanha, dizendo que a Globo “não merece confiança” e que estaria sob suspensão da campanha dele. Essa é uma reação política de um candidato, e deve ser lida como tal.
O argumento da Globo tem lógica: executivos recebem políticos, e a separação entre direção e redação é um princípio conhecido. Mas imparcialidade, para o leitor, não termina no organograma. Um almoço reservado, na sede da emissora, horas antes da sabatina de um dos candidatos, mantém a pergunta de pé, ainda que a resposta seja a de que nada de relevante tenha sido tratado.
O que a coluna do O Povo diz e o que ainda falta
Um terceiro relato elevou a temperatura. Em coluna publicada em 17 de outubro, João Paulo Biage, do O Povo, afirma que os executivos ouviram de Flávio que já há acordo no Congresso pela volta das bets, e de Flávio e Rogério Marinho que há objetivo de rever o fim da escala 6x1. Segundo a coluna, a Globo perdeu receita com a proibição, não conseguiu repor a publicidade e fez cortes internos. O relato contrasta com a posição de Flávio na sabatina, quando disse que não tentaria reverter a medida.
Aqui, cautela é obrigatória. A coluna se apoia em fontes não nomeadas, e a Globo respondeu apenas que o encontro teve caráter institucional e que o presidente também seria recebido se tivesse pedido. Não encontrei, até a data deste texto, um desmentido específico sobre os temas citados. Há também uma discrepância: a coluna diz que a Globo “procurou” Flávio, enquanto a CNN apurou que o pedido de visita partiu da campanha dele.
Se o relato se confirmar, o problema deixa de ser a aparência e passa a ser o conflito de interesses: um grupo de mídia conversando com um candidato sobre leis que afetam suas receitas, horas antes de entrevistá-lo. Se não se confirmar, a Globo deveria dizer isso com clareza e detalhe, em vez de se limitar ao caráter “institucional” da visita.
Imparcialidade é processo e aparência
Imparcialidade não exige que o jornalismo seja neutro, nem que trate com o mesmo peso fatos de pesos diferentes. Exige equidistância no tratamento, rigor igual na verificação e transparência quando o processo é questionado. Na prática, isso significa três coisas simples.
Primeiro, reciprocidade: se um candidato é recebido pela cúpula do veículo, o outro deve ter a mesma oportunidade, e o veículo deve dizer isso publicamente antes de ser cobrado. Segundo, verificação proporcional à gravidade: quanto mais grave a acusação e mais próxima a eleição, maior o ônus de demonstrar a procedência do material. Terceiro, prestação de contas: quando fatos conflitantes surgem, explicar ao leitor o que se sabe, o que se ignora e o que se corrigiu.
Em nenhum dos três episódios a imprensa foi pega falsificando nada. Mas, em todos eles, o leitor ficou sem respostas que poderiam ter sido dadas de antemão.
O que pesa contra esta tese
Um texto honesto sobre imparcialidade precisa tratar os dois lados com o mesmo rigor, e há argumentos fortes do outro lado.
A Globo cobriu criticamente o caso Flávio-Vorcaro. Segundo um resumo de manchetes do XP, o G1 publicou “Cronologia desmonta versão de Flávio Bolsonaro sobre Master e Vorcaro” e “PF apura suposta cobrança de Flávio a Vorcaro”. E Lula participou da sabatina do Jornal Nacional um dia antes de Flávio. Há ainda diferença de verificação entre os casos: Flávio admitiu ter encontrado Vorcaro durante a prisão domiciliar e ter recebido parte do pagamento acordado, enquanto o áudio da Veja sobre Lula é contestado por PF, PGR e pelo advogado do ex-banqueiro.
Também é preciso reconhecer que a revista tem o direito de publicar o que apurou, e que a ausência de perícia concluída não autoriza a chamar o áudio de falso. E a imprensa não é obrigada a convidar todos os candidatos para tudo o que um deles pede.
Por fim, a disputa sobre a mídia atinge vários lados. A Piauí citou o publisher da Abril, dona da Veja, em jantar com Flávio, e a Abril nega, informando que ele estava fora de São Paulo na data. São alegações cruzadas que o leitor precisa ver tratadas com a mesma seriedade.
O que se espera dos dois
Nada disso resolve a questão central. A imprensa tem de ser, e parecer, imparcial, sobretudo quando faltam poucos dias para o voto. À Veja, cabe explicar como verificou o material e responder às contestações com os dados que puder tornar públicos. À Globo, cabe detalhar o que foi tratado no almoço, dizer se haverá encontro com o outro candidato e esclarecer se discutiu bets e escala 6x1.
Quem cobra transparência dos poderosos precisa praticá-la primeiro. Num segundo turno decidido por pouco, a confiança na imprensa é um dos poucos ativos que não se recupera depois da apuração dos votos.
Este artigo contou com o apoio de inteligência artificial em diferentes etapas de seu processo de produção. O conteúdo final foi revisado e validado pelo autor.
Fontes:
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